O jornal que não quer ser gratuito 'FT' tem sucesso na cobrança por acesso ao site, modelo que já atrai outros diários
New York Times Há não muito tempo atrás, quando outros executivos de mídia se convenceram de que a única maneira de ser bem-sucedido na internet era dar livre acesso a seu conteúdo, o jornal britânico "Financial Times" adotou uma postura considerada excêntrica. O "FT" começou a cobrar pelo acesso a seu site em 2002.— Éramos vistos como ligeiramente estranhos — explica John Ridding, diretor-executivo do jornal.Agora, com poucos sinais de que a publicidade está se recuperando de uma forte queda e com outras editoras imitando o FT.com ao estudar o acesso pago, Ridding se sente vingado:— Por um tempo, estávamos bastante sozinhos na terra do pago. Mas tornou-se claro que só a publicidade não vai sustentar modelos de negócios on-line. O jornalismo de qualidade tem de ser cobrado.O "Financial Times" vai incluir, em seu sistema de cobrança pelo acesso on-line, um esquema de micropagamentos para reportagens individuais, como alternativa a uma assinatura. O objetivo é reter o leitor ocasional, que chegou ao site por uma ferramenta de busca. Isso também manterá o site acessível a uma grande audiência, dando mais retomo aos anunciantes.
Outras editoras estão considerando sábias as escolhas do "FT". Rupert Murdoch, diretor-executivo da News Corp. (controladora de "Wall Street Journal", "The Times" e os canais Fox, entre outros), disse este mês que pretende passar a cobrar o acesso a todos os seus sites de notícias. Isso faria com que os principais jornais de Estados Unidos, Grã-Bretanha e Austrália se unissem ao "Journal", que já cobra pelo acesso a quase todo o seu site.Executivos do próprio "New York Times" já disseram estar analisando maneiras de cobrar pelo acesso on-line, sem dar detalhes. É uma grande mudança em relação a 2007, quando o site do "Times" desistiu de cobrar por parte de seu conteúdo, ao concluir que, com isso, restringia o potencial para publicidade on-line, apesar de ter atraído 227 mil pagantes. Na ocasião, Murdoch afirmava em público que, assim que fechasse a compra do "Journal", tornaria seu site gratuito.
Com fabricantes de artigos de luxo, bancos e outros anunciantes cortando gastos em meio à recessão, a receita com publicidade caiu drasticamente no "FT" e em outros jornais. A Pearson, editora do "FT", não apresentou dados separados para o jornal, mas, segundo analistas, sua receita de publicidade deve ter caído 20% em relação ao ano passado.Mês passado, a Pearson informou que o lucro operacional da FT Publishing, que incluiu o jornal, caíra 40% no primeiro semestre, e as vendas, 13%. A circulação também caiu. Em junho, as vendas do jornal recuaram 7% em relação ao mesmo mês de 2008, para 412 mil unidades, segundo o Escritório Verificador de Circulação da Grã-Bretanha.A audiência paga do FT.com não cresceu muito desde 2007: passou de 101 mil para 117 mil em todo o mundo, bem abaixo do um milhão registrado pelo site do "Journal". Mas o FT.com é lucrativo. A assinatura do site, com acesso a todo seu conteúdo — internautas registrados podem ler, de graça, no máximo dez reportagens por mês —, custa US$ 300 por ano nos EUA. Acrescentar a versão impressa custa mais US$ 100.
Com os reajustes da tarifa, a receita das assinaturas do site cresceu 30% em relação ao ano passado, disse Ridding. O preço da edição impressa também subiu.Para ampliar a receita digital, no ano passado o jornal restringiu o acesso a seus arquivos, tornando necessária a aquisição de uma licença especial. Mais de 600 clientes corporativos, de um total de 50 mil usuários, fizeram a assinatura. O jornal também criou recentemente uma newsletter para investidores na China, chamada China Confidential, que custa US$ 4.138 por ano.
O crescimento dos serviços on-line pagos do "FT" mostra que o jornal estava certo ao manter limites para a gratuidade quando outras empresas de mídia se rendiam ao mantra do Vale do Silício de que "a informação quer ser livre", afirma Tim Luckhurst, professor de jornalismo na Universidade de Kent, na Inglaterra, e ex-editor do "Scotsman".— Isso mostrou que, em pelo menos um nicho, o esforço jornalístico cria valor — afirma Luckhurst.Para outras editoras que pensam em cobrar pelo conteúdo on-line, a questão é se o leitor pagará pelas notícias em geral, como faz hoje com as financeiras. Alguns analistas duvidam, mas Ridding não:— Há muito fatalismo: as pessoas afirmam que não é possível cobrar pelo noticiário geral. Acho que é possível, sim, e necessário, que as editoras cobrem — afirma, comemorando o sucesso do FT.com.—Tudo vem da crença no valor de nosso jornalismo.
Fonte: O Globo – 18/08/09